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Blog dedicado à ausência de Michele Dacas por 37 dias. É um relato de viagem em forma de melodia - musical, silábica - mas um relato não de quem vai, e sim de quem fica. Aqui estão os meus lugares mais íntimos que nunca estive.E ela, não sabendo desse relato, quando retorna, encontra uma outra viagem...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sugestão de leitura do Cônscio

Resenha:
Livro: "Por que Almocei meu Pai ", Lewis, R.
Tópicos da obra: Humor, Antropologia, Zoologia.
Humor e rigor científico revelam os rumores do desenvolvimento humano
 
    No verso de Por que almocei meu pai, o livro traz:“as aventuras do homem-macaco mais importante do Pleistoceno”¹. Essa obra do jornalista inglês Roy Lewis, lançado em 1960 e atualmente redescoberto na Itália, utiliza bases científicas para contar a história fictícia de uma horda que descobre o fogo, a arte, as armas.                                           

  Narrada por Ernest, filho do primata - revolucionário - protagonista Edward; e sobrinho de Tio Vanya, este último, contrário aos princípios e as ações evolucionistas de seu irmão; a obra, realçada com humor, remonta a África de dois milhões de anos atrás e leva o leitor para um mundo já extinto, porém tão real quanto o nosso.


   Edward, aterrorizado com a idéia de extinção, caso sua espécie não evoluísse e obcecado a transformar sua horda nos primeiros representantes do Homo Sapiens na Terra, acredita que só a evolução permitirá aos homens dominar o mundo. E assim, Ernest conta como seu pai adquiriu o fogo e incendiou uma floresta; instituiu a exogamia, descobriu a dança, a pintura, utilidades para a pedra lascada e como sua horda ganhou vantagem diante de predadores perfeitos como os grandes felinos, tirando seu grupo da condição de carniceiros e colocando-os como competidores. 
                         
   Parte da jocosidade da obra está em ouvir de primatas jargões científicos de antropólogos, zoólogos e etnólogos enquanto adotam atitudes pouco intelectuais. Um dos trechos que mostra o humor é a dinâmica de roubar fêmeas de outras tribos para diferenciar a genética do grupo; com isso, Lewis une a desventura do jovem primata com a confusão adolescente da descoberta do sexo oposto. Outro evidente aspecto da obra para os estudiosos dessas áreas é a relação com o livro Totem e Tabu de Freud² e Sapiens Demens de Edgar Morin³, pois ela explicita conceitos da psicanálise e teorias sobre o princípio da religião, assim como a introspecção, o filosofar e a idéia de dominação que explicam tanto o título do livro como levam o narrador a justificar o próprio crime. 


   De forma clara, Por que almocei meu pai, pode interessar também àqueles com pouca familiaridade sobre a antropologia ou a nossa própria história, pois o mais intrigante da obra está em seu caráter amplo, quase didático, conseguindo de maneira objetiva e divertida, caracterizar o que supostamente nos antecedeu e originou, apresentando nossos antepassados mais remoto como seres não muito peculiares. Seguramente o marco de uma obra clássica, digna de ser lida e citada.
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¹Na escala de tempo geológico, o Pleistoceno é a época do período Quaternário da era Cenozóica compreendida entre 1 milhão e 806 mil e 11 mil e 500 anos atrás, aproximadamente.

²Sigmund Freud nascido em 6 de maio de 1856, falecido em 23 de setembro de 1939.  Judeu; Médico, neurologista austríaco e  fundador da psicanálise.

³Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum, nasceu em Paris, 8 de Julho 1921, é um antropólogo, sociólogo e filósofo francês de origem sefardita.

N° de páginas: 160
Preço: Livraria Martins fontes R$34,00 reais

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Pequeno Américo e sua primeira descoberta

[ Tema infantil ]
Era um menino pequeno daqueles arteiros.                            
...Certo dia resolveu passear por conta própria. Segundo sua consciência, já estava pronto para descobrir a esquina mais próxima sem o auxílio de seus queridos pais.

  Forçando a mente para lembrar como se preparava um espião holiwoodiano, o menino puxou debaixo do sofá seu tênis vermelho, já surrado pelo tempo, mas que lhe confortaria se houvesse fuga; do cesto de roupa suja pegou e vestiu sua calça jeans escura que o ajudaria a camuflar-se na sombra; e como último utensílio apoderou-se do casaco de seu irmão mais velho para uma melhor proteção no caso de Joãozinho aparecer e lhe atirar pedras como de costume.


Depois de seu vestuário preparado o menino saiu à porta e com ímpeto deu-se a andar em direção a tão cobiçada esquina.


Próximo ao quadragésimo passo que ele dera seus olhinhos insistiam em ver somente o horizonte, nem sinal da esquina, e para piorar percebeu que estava começando a ficar molhado, era suor, o sol, a pino, estava muito forte e ele não tinha pensado nisso. Entretanto tudo aquilo que estava contra ele não o impediria de cumprir seu objetivo; o que o impediria, talvez, era aquela imagem: Joãozinho. De repente avistou a casa azul, igual ao mar, e percebeu que estava no rumo certo. Em seguida lembrou que logo passaria em frente a casa de seu inimigo, e sabia que havia possibilidade de ele estar em casa.


" Dito e feito", assim que avistou a residência de seu rival, notou que havia movimentação na casa, um vulto estava na janela e para falta de sorte do garoto quem estava na janela era o próprio, Joãozinho. O rapazinho interrompeu sua caminhada por um instante para pensar se continuaria e se sim, de que forma passaria pela casa de seu inimigo sem ser visto; mas nem bem parou e Joãozinho o vê, parecia até que o estava esperando. Então ele gritou da janela:


- Que fantasia é essa que está vestido? Parece o Jeca Tatu !

...Tatu é você, que não corta as unhas... - Pensou o menino.
- Espere aí, vou ver de perto suas roupas ridículas! - Após exclamar, saiu da janela.


  O menino preocupou-se " agora ele virá aqui, estou perdido, o que faço?"
  Sua mente estava confusa, não decidia se ia ou voltava, se enfrentava-o ou se já começava a chorar, assim poderia haver pena por parte do seu inimigo; mas ouviu vozes, concentrou-se para entendê-las.


" Joãozinho, o sol está muito forte, vai lhe fazer mal, não vai sair não, fique aqui dentro e não me desobedeça. Quando o sol enfraquecer você pode sair!".


 O garoto entendeu que as ordens não seriam descumpridas. Então encheu-se de alegria e continuou a andar, um passo calmo e vitorioso, como se nada mais estivesse em seu caminho.


Não demorou muito e lá estava ele, a passos de encontrar a esquina. Então ele chegou, parou e descansou; observou bem as ruas, sentiu-se que estava onde o mundo começava; aquela esquina, para ele, era a rota dos quatro cantos. E descobrirá, talvez a primeira descoberta de sua tão juvenil vida, a sensação gloriosa da conquista, a qual, entre todos os filmes com seus geniais espiões e heróis, não o tinham lhe feito sentir.

Por um segundo o menino pensou em continuar sua caminha por uma das ruas, mas só por um segundo, logo percebeu que precisava crescer mais para continuar e que essa jornada seria uma outra história.

Em seguida voltou, rumo a sua casa, e rápido, pois não sabia até quando o sol continuaria forte.

domingo, 11 de julho de 2010

E agora, uma clínica veterinária?

    Joaquim abraçara o suíno supostamente pela última vez. Asdrúbal, seu colega de profissão, consola-o com sutileza:


 - Joaquim, dá-me logo este saco de banha ambulante, não vê que este é seu único destino: Ser engordado para engordar nossos poucos fregueses. O dia chegou, passe agora o banhoso, vai ser melhor para todos!
 - Não! Você não entende, ele não é comum; dentre tantos animais dos quais fui carrasco, com minha impiedosa lâmina, este animal merece clemência. Vou lhe contar o porque: No dia nove de julho, fui ao aniversário de um grande amigo, seu ofício, historiador¹. A festa começara e eu estava atrasado; fui logo parabenizá-lo, mas não o encontrei, procurei por toda a parte até que avistei uma porta, abri, entrei. Analisei de súbito e percebi que o caminho levar-me-ia a parte inferior da casa. Pois bem, desci os degraus e avistei um corredor, segui-o até onde a luz chamava-me; avistei, enfim, meu procurado amigo; ele estava de costas, sentado. Quando comecei a me aproximar para chamar sua atenção ele me interrompeu: " Espere! Não era para ninguém entrar aqui, mas já que entrou...contar-lhe-ei um segredo".


   Nesse momento, enquanto Joaquim narrava minuciosamente a história, todos os ademais funcionários pararam seus afazeres e lhe prestaram a atenção.


 - Então meu amigo virou-se para mim e em seus braços, sobre seu fêmur, estava um porco.
"Está vendo este animal ? Este animal é sagrado; ele é oriundo do sul interiorano da Índia; quem tratá-lo como um rei terá uma vida perfeita!" - Foi o que disse meu caríssimo historiador.
- Naquele instante gargalhei-me por dentro, como vocês, agora. Mas de repente o animal, o porco, soltou um grunhido; em seguida apagou-se o brilho dos meus olhos; pensei que tinha perdido a consciência, mas não, percebi no período de um segundo que tinha tido visões fantásticas e reveladoras, as quais não sei descrever. Desde então acredito no poder deste suíno. Há dois meses meu amigo, o historiador, veio a falecer e deixou-me, ao fim de suas últimas palavras, este animal. Por mais que vocês não acreditem eu não vos deixarei matá-lo!


    Joaquim, após terminar seu apelo, cobriu o animal com seu corpo na tentativa de protegê-lo de seu trágico destino.
    Asdrúbal e o resto dos funcionários que acabaram por ouvir a história e súplica de Joaquim em defesa do suíno, iniciaram uma sessão de gargalhadas incontroláveis, pensavam que aquele disparate era a coisa mais infame que alguém poderia ouvir. Riam como fascistas, zombavam com toda impudência que não se deve ter.
    Quando, de repentinamente, o porco pigarreou um grunhido. O ambiente, antes tão sonoro, serenou. Todos os indivíduos do local, em silêncio, voltaram-se para o suíno. Asdrúbal, entre todas os outros foi o primeiro a ajoelhar-se diante do porco e, numa ação súbita, abraçou o animal, abraçara-o como jamais abraçara seus filhos. Enquanto Asdrúbal acaricia o suíno, todos os outros funcionários começam a desmontar o estabelecimento, até não mais, lembrar que ali, existiu um restaurante.
¹A um importante professor, didaticamente , que tive em minha vida.