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Blog dedicado à ausência de Michele Dacas por 37 dias. É um relato de viagem em forma de melodia - musical, silábica - mas um relato não de quem vai, e sim de quem fica. Aqui estão os meus lugares mais íntimos que nunca estive.E ela, não sabendo desse relato, quando retorna, encontra uma outra viagem...

domingo, 11 de julho de 2010

E agora, uma clínica veterinária?

    Joaquim abraçara o suíno supostamente pela última vez. Asdrúbal, seu colega de profissão, consola-o com sutileza:


 - Joaquim, dá-me logo este saco de banha ambulante, não vê que este é seu único destino: Ser engordado para engordar nossos poucos fregueses. O dia chegou, passe agora o banhoso, vai ser melhor para todos!
 - Não! Você não entende, ele não é comum; dentre tantos animais dos quais fui carrasco, com minha impiedosa lâmina, este animal merece clemência. Vou lhe contar o porque: No dia nove de julho, fui ao aniversário de um grande amigo, seu ofício, historiador¹. A festa começara e eu estava atrasado; fui logo parabenizá-lo, mas não o encontrei, procurei por toda a parte até que avistei uma porta, abri, entrei. Analisei de súbito e percebi que o caminho levar-me-ia a parte inferior da casa. Pois bem, desci os degraus e avistei um corredor, segui-o até onde a luz chamava-me; avistei, enfim, meu procurado amigo; ele estava de costas, sentado. Quando comecei a me aproximar para chamar sua atenção ele me interrompeu: " Espere! Não era para ninguém entrar aqui, mas já que entrou...contar-lhe-ei um segredo".


   Nesse momento, enquanto Joaquim narrava minuciosamente a história, todos os ademais funcionários pararam seus afazeres e lhe prestaram a atenção.


 - Então meu amigo virou-se para mim e em seus braços, sobre seu fêmur, estava um porco.
"Está vendo este animal ? Este animal é sagrado; ele é oriundo do sul interiorano da Índia; quem tratá-lo como um rei terá uma vida perfeita!" - Foi o que disse meu caríssimo historiador.
- Naquele instante gargalhei-me por dentro, como vocês, agora. Mas de repente o animal, o porco, soltou um grunhido; em seguida apagou-se o brilho dos meus olhos; pensei que tinha perdido a consciência, mas não, percebi no período de um segundo que tinha tido visões fantásticas e reveladoras, as quais não sei descrever. Desde então acredito no poder deste suíno. Há dois meses meu amigo, o historiador, veio a falecer e deixou-me, ao fim de suas últimas palavras, este animal. Por mais que vocês não acreditem eu não vos deixarei matá-lo!


    Joaquim, após terminar seu apelo, cobriu o animal com seu corpo na tentativa de protegê-lo de seu trágico destino.
    Asdrúbal e o resto dos funcionários que acabaram por ouvir a história e súplica de Joaquim em defesa do suíno, iniciaram uma sessão de gargalhadas incontroláveis, pensavam que aquele disparate era a coisa mais infame que alguém poderia ouvir. Riam como fascistas, zombavam com toda impudência que não se deve ter.
    Quando, de repentinamente, o porco pigarreou um grunhido. O ambiente, antes tão sonoro, serenou. Todos os indivíduos do local, em silêncio, voltaram-se para o suíno. Asdrúbal, entre todas os outros foi o primeiro a ajoelhar-se diante do porco e, numa ação súbita, abraçou o animal, abraçara-o como jamais abraçara seus filhos. Enquanto Asdrúbal acaricia o suíno, todos os outros funcionários começam a desmontar o estabelecimento, até não mais, lembrar que ali, existiu um restaurante.
¹A um importante professor, didaticamente , que tive em minha vida.

Um comentário:

Unknown disse...

Um belo começo de um belo rapaz com um belo talento.
Parabéns!