- Joaquim, dá-me logo este saco de banha ambulante, não vê que este é seu único destino: Ser engordado para engordar nossos poucos fregueses. O dia chegou, passe agora o banhoso, vai ser melhor para todos!
- Não! Você não entende, ele não é comum; dentre tantos animais dos quais fui carrasco, com minha impiedosa lâmina, este animal merece clemência. Vou lhe contar o porque: No dia nove de julho, fui ao aniversário de um grande amigo, seu ofício, historiador¹. A festa começara e eu estava atrasado; fui logo parabenizá-lo, mas não o encontrei, procurei por toda a parte até que avistei uma porta, abri, entrei. Analisei de súbito e percebi que o caminho levar-me-ia a parte inferior da casa. Pois bem, desci os degraus e avistei um corredor, segui-o até onde a luz chamava-me; avistei, enfim, meu procurado amigo; ele estava de costas, sentado. Quando comecei a me aproximar para chamar sua atenção ele me interrompeu: " Espere! Não era para ninguém entrar aqui, mas já que entrou...contar-lhe-ei um segredo".
Nesse momento, enquanto Joaquim narrava minuciosamente a história, todos os ademais funcionários pararam seus afazeres e lhe prestaram a atenção.
- Então meu amigo virou-se para mim e em seus braços, sobre seu fêmur, estava um porco.
"Está vendo este animal ? Este animal é sagrado; ele é oriundo do sul interiorano da Índia; quem tratá-lo como um rei terá uma vida perfeita!" - Foi o que disse meu caríssimo historiador.
- Naquele instante gargalhei-me por dentro, como vocês, agora. Mas de repente o animal, o porco, soltou um grunhido; em seguida apagou-se o brilho dos meus olhos; pensei que tinha perdido a consciência, mas não, percebi no período de um segundo que tinha tido visões fantásticas e reveladoras, as quais não sei descrever. Desde então acredito no poder deste suíno. Há dois meses meu amigo, o historiador, veio a falecer e deixou-me, ao fim de suas últimas palavras, este animal. Por mais que vocês não acreditem eu não vos deixarei matá-lo!
Joaquim, após terminar seu apelo, cobriu o animal com seu corpo na tentativa de protegê-lo de seu trágico destino.
Asdrúbal e o resto dos funcionários que acabaram por ouvir a história e súplica de Joaquim em defesa do suíno, iniciaram uma sessão de gargalhadas incontroláveis, pensavam que aquele disparate era a coisa mais infame que alguém poderia ouvir. Riam como fascistas, zombavam com toda impudência que não se deve ter.
Quando, de repentinamente, o porco pigarreou um grunhido. O ambiente, antes tão sonoro, serenou. Todos os indivíduos do local, em silêncio, voltaram-se para o suíno. Asdrúbal, entre todas os outros foi o primeiro a ajoelhar-se diante do porco e, numa ação súbita, abraçou o animal, abraçara-o como jamais abraçara seus filhos. Enquanto Asdrúbal acaricia o suíno, todos os outros funcionários começam a desmontar o estabelecimento, até não mais, lembrar que ali, existiu um restaurante.
¹A um importante professor, didaticamente , que tive em minha vida.


Um comentário:
Um belo começo de um belo rapaz com um belo talento.
Parabéns!
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